terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Testemunho




“E os meninos à volta da fogueira
vão aprender a fazer coisas de verdade...  
 (poema cantado por Paulo de Carvalho)




A Corrida das Fogueiras (CF) é um sonho ! Não sei se comanda a vida do Paulo Mamede e, porventura, ele se dá conta do imaginário à volta dessa prova. Estou certo de que é o orgulho dos penichenses e um estandarte da dignidade e de dignificação de todos quantos se envolvem na efeméride – sejam os participantes, os organizadores, o público; sejam os colaboradores – (mas que bonito é ver a colaboração dos Escuteiros!)

Este evento desportivo é como o vinho do Porto, quanto mais velho, melhor! Aplauda-se, pois, o espírito criador e o rigoroso cuidado da manutenção da sua qualidade.

Dito isto, a corrida tem obrigatoriamente de ser publicada. Se os líderes da opinião ou os órgãos da comunicação social não lhe conferem a importância que merece, cabe-nos a nós, corredores e amantes do desporto atlético, a tarefa de inventar os meios necessários para de outras formas levarmos mais rápido, bem alto, mais longe, ao conhecimento público as suas múltiplas e complexas virtualidades.

Das imensas provas em que tenho participado e por tudo o que tenho lido e analisado nas publicações da modalidade – tomando Peniche por referência – concluo que os conceitos de “melhor, pior”, “boa, má”, “mediana” prova carecem de objectividade e de profundo rigor, caso contrário com esta vaga definição terminológica anda-se a confundir o trigo com o joio, a propósito das provas no nosso país.

Em minha opinião, a CF trata-se inequivocamente da prova de maior qualidade e mais substantiva no calendário das provas de estrada. Atento o número efectivo de participantes, quiçá da real melhor prova do ponto de vista quantitativo. A Corrida das Fogueiras não precisa de artigos jornalísticos encomendados para se impor à generalidade do universo dos corredores. Seria bom que os patrocinadores, muitas vezes suportados pelo show off  circunstancial atentassem bem no fenómeno que é esta prova.

Por ciência, ou por magia, a verdade é que a organização da prova tem em mãos um poderosíssimo instrumento criador de invulgar empatia, uma simbiose perfeita entre participantes, público e penichenses. Peniche torna-se uma cidade onde reina a fantasia...

Peniche, na noite das fogueiras, é terra prometida. Terra libertada e libertadora, terra purificada e purificadora. Não há pesadelos que resistam ao exorcismo da corrida. O sagrado que emana do espírito aí reinante, embora comungando muito do profano, define-se bem no contexto da prova, tal qual o azeite na água, a tal ponto que bem se pode declarar um milagre o desempenho dos corredores, mesmo quando as suas condições físicas não são as adequadas. A corrida por isto, já ultrapassou (ultrapassa) o mero facto desportivo.

Se eu fosse poeta, cantaria em verso livre a epopeia dessa noite popular. Não o sendo, deixo o desafio aos artistas locais e aos literatos para gravarem a ouro esses momentos únicos da história de Peniche, momentos dignos de pertencerem ao imaginário colectivo da localidade.

Os sentimentos e as emoções que provoca terão de ser necessariamente estudados e analisados por parte dos psicólogos e sociólogos. Há ferramentas que o senso comum não dispõe para explorar tantas virtualidades culturais. A CF é, deste modo, uma fonte de investigação a não negligenciar, também.

Ao Paulo Mamede, ao Pelouro do Desporto e da Cultura de Peniche deixo o meu alerta para o futuro. Valerá a pena envolver outras entidades e outros indivíduos para captar os frutos de tão belo trabalho.

Valerá a pena demonstrar que a cultura está presente em todos os actos humanos, em todas asa actividades onde o espírito e a criatividade – o imaginário, embora envolvendo a realidade - , estão para além do nosso entendimento imediato.

Valerá a pena mostrar a “Corrida das Fogueiras” é, assim, um fogo que arde, sagrado exemplar para tantas e tantas manifestações desportivas que de forma pouco digna se desenrolam um pouco por toda a parte.

Orgulhemo-nos de divulgar o que é bom e bonito! Sem preconceitos. Tomemos a CF como modelo a plagiar, que desta forma veremos aumentar o número de participantes desportivos no nosso país, e por consequência o número de participantes em todas as provas, de norte a sul de Portugal.

A noite da CF tem tudo, excepto “Amigos de Peniche”.

                                                                                                              Porto, Julho 2001
                                                                                                              Joaquim Almeida Dias 
                                                                                                              Gondomar Futsal Clube

                                                                                                             B.I. nº 3148057, 16/11/94 ªI.  
                                                                                                                                                  Porto
                                                                                                              Rua Nan Vitória, 867
                                                                                                              4350-247 PORTO
                                                                                                              Atleta com o dorsal 409
 

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