“E os meninos à volta da fogueira
vão aprender a fazer coisas de verdade...
(poema cantado por Paulo de Carvalho)
A
Corrida das Fogueiras (CF) é um sonho ! Não sei se comanda a vida do
Paulo Mamede e, porventura, ele se dá conta do imaginário à volta dessa
prova. Estou certo de que é o orgulho dos penichenses e um estandarte da
dignidade e de dignificação de todos quantos se envolvem na efeméride –
sejam os participantes, os organizadores, o público; sejam os
colaboradores – (mas que bonito é ver a colaboração dos Escuteiros!)
Este
evento desportivo é como o vinho do Porto, quanto mais velho, melhor!
Aplauda-se, pois, o espírito criador e o rigoroso cuidado da manutenção
da sua qualidade.
Dito
isto, a corrida tem obrigatoriamente de ser publicada. Se os líderes da
opinião ou os órgãos da comunicação social não lhe conferem a
importância que merece, cabe-nos a nós, corredores e amantes do desporto
atlético, a tarefa de inventar os meios necessários para de outras
formas levarmos mais rápido, bem alto, mais longe, ao conhecimento
público as suas múltiplas e complexas virtualidades.
Das
imensas provas em que tenho participado e por tudo o que tenho lido e
analisado nas publicações da modalidade – tomando Peniche por referência
– concluo que os conceitos de “melhor, pior”, “boa, má”, “mediana”
prova carecem de objectividade e de profundo rigor, caso contrário com
esta vaga definição terminológica anda-se a confundir o trigo com o
joio, a propósito das provas no nosso país.
Em
minha opinião, a CF trata-se inequivocamente da prova de maior
qualidade e mais substantiva no calendário das provas de estrada. Atento
o número efectivo de participantes, quiçá da real melhor prova do ponto
de vista quantitativo. A Corrida das Fogueiras não precisa de artigos
jornalísticos encomendados para se impor à generalidade do universo dos
corredores. Seria bom que os patrocinadores, muitas vezes suportados
pelo show off circunstancial atentassem bem no fenómeno que é esta prova.
Por
ciência, ou por magia, a verdade é que a organização da prova tem em
mãos um poderosíssimo instrumento criador de invulgar empatia, uma
simbiose perfeita entre participantes, público e penichenses. Peniche
torna-se uma cidade onde reina a fantasia...
Peniche,
na noite das fogueiras, é terra prometida. Terra libertada e
libertadora, terra purificada e purificadora. Não há pesadelos que
resistam ao exorcismo da corrida. O sagrado que emana do espírito aí
reinante, embora comungando muito do profano, define-se bem no contexto
da prova, tal qual o azeite na água, a tal ponto que bem se pode
declarar um milagre o desempenho dos corredores, mesmo quando as suas
condições físicas não são as adequadas. A corrida por isto, já
ultrapassou (ultrapassa) o mero facto desportivo.
Se
eu fosse poeta, cantaria em verso livre a epopeia dessa noite popular.
Não o sendo, deixo o desafio aos artistas locais e aos literatos para
gravarem a ouro esses momentos únicos da história de Peniche, momentos
dignos de pertencerem ao imaginário colectivo da localidade.
Os
sentimentos e as emoções que provoca terão de ser necessariamente
estudados e analisados por parte dos psicólogos e sociólogos. Há
ferramentas que o senso comum não dispõe para explorar tantas
virtualidades culturais. A CF é, deste modo, uma fonte de investigação a
não negligenciar, também.
Ao
Paulo Mamede, ao Pelouro do Desporto e da Cultura de Peniche deixo o
meu alerta para o futuro. Valerá a pena envolver outras entidades e
outros indivíduos para captar os frutos de tão belo trabalho.
Valerá
a pena demonstrar que a cultura está presente em todos os actos humanos,
em todas asa actividades onde o espírito e a criatividade – o
imaginário, embora envolvendo a realidade - , estão para além do nosso
entendimento imediato.
Valerá
a pena mostrar a “Corrida das Fogueiras” é, assim, um fogo que arde,
sagrado exemplar para tantas e tantas manifestações desportivas que de
forma pouco digna se desenrolam um pouco por toda a parte.
Orgulhemo-nos
de divulgar o que é bom e bonito! Sem preconceitos. Tomemos a CF como
modelo a plagiar, que desta forma veremos aumentar o número de
participantes desportivos no nosso país, e por consequência o número de
participantes em todas as provas, de norte a sul de Portugal.
A noite da CF tem tudo, excepto “Amigos de Peniche”.
Porto





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